notícias

27.10.2015
03 de Novembro – Exposição ‘Vou Voltar’ cartografa histórias de idas e vindas entre o Nordeste e o Sudeste brasileiros

Mariana Vaz e Mirella Marino realizam mostra audiovisual na Escola da Cidade, exibindo textos, fotografias e vídeos que ilustram de maneira subjetiva as recentes mudanças sociais e econômicas na paisagem da periferia paulistana e no Sertão nordestino. Abertura no dia 03/11, terça-feira, às 18 horas.

A Escola da Cidade exibe, de 03 a 29 de novembro de 2015, a exposição “Vou Voltar – cartografias de lá e de cá”, das artistas Mariana Vaz e Mirella Marino. Organizada em torno da pesquisa das condições de vida e de histórias de personagens reais, residentes na capital paulista e no sertão dos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, a exposição traz a público textos, fotografias e vídeos, mostrando uma leitura subjetiva desses espaços e chamando atenção para os dados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio – PNAD 2012 – do IBGE que atestam um saldo praticamente nulo de migração do Nordeste para o Sudeste brasileiros. As fotografias e relatos das personagens entrevistadas ilustram diferentes realidades socioeconômicas, assim como um universo cambiante de valores e de identidades inéditos na história recente do país.

O imaginário das relações entre o Nordeste e o Sudeste brasileiro é povoado por histórias das migrações dos nordestinos para o sul em busca de melhores condições de vida, salários e empregos. As artistas agregam um novo substrato de imaginários, narrativas e formas de vida a essa miríade de histórias, reconhecendo novas realidades para além dos números. No blog do projeto escrevem um diário de bordo ilustrado de suas viagens ao Nordeste, revelando histórias surpreendentes de quem foi, voltou, tornou a ir, voltou de novo, não quer ir, não quer voltar e ainda não sabe se vai ficar ou não.

Apresentada por meio de textos e áudios, exibe histórias dos entrevistados no espaço expositivo e também espalhadas pelo edifício, como por exemplo:

Vânia opera quatro grandes máquinas de bordar  no terceiro box no mercado de Aparecida, na Paraíba – um pequeno vilarejo com cerca de 8 mil habitantes ao longo da rodovia BR 230. Ela morou 18 anos em São Paulo, na Mooca, e trabalhava no Brás, na feira da madrugada. Voltou em 2008 para Aparecida : “sempre trabalhei aqui e ganho quase a mesma coisa que ganhava lá”. Como o custo de vida é bem menor, ela diz que vive melhor.  As pessoas vão pra lá “atrás de uma oportunidade melhor, mas chegam e percebem que não é o que eles pensam (…) Hoje em dia aqui é muito bom. Antigamente, não tinha trabalho, mas hoje tem”.

O destaque, porém, são as duas linhas de fotografias justapostas, que constroem panoramas de cidades: uma delas exibe uma compilação de imagens do sertão do Nordeste , das localidades onde estiveram, e a outra, imagens do Capão Redondo.

“Muitos jovens que conhecemos tinham vindo a São Paulo a passeio ou para experimentar a vida por aqui. As condições em suas cidades de origem – ou nas cidades próximas – estão melhores, principalmente nas áreas urbanas e, assim, as possibilidades de escolhas deles se abriram. Podem escolher voltar e, os que se vão, vão a passeio e não para migrar. E ainda podem preferir mudar para cidades maiores e capitais do próprio Nordeste e ficar mais próximos às suas famílias”.

 “Se São Paulo atrai pela liberdade de poder ganhar o próprio dinheiro ou pelos salários, há a percepção de que o preço de viver por aqui é alto por diversos fatores, como o cansaço gerado pelas grandes distâncias entre a casa e o trabalho, a sensação de que aqui vive-se só para trabalhar, o temor de sair à rua, entre outros. Como resumiu Lulu, que recentemente voltou a morar em São José da Lagoa Tapada depois de  12 anos em São Paulo: ‘mais quantidade do que qualidade'”.

 

“As histórias das vidas em trânsito integram o cotidiano do sertão paraibano e cearense. Os sertanejos têm papo fácil e são grandes contadores de causos. Diversas vezes ao dia, em diferentes situações, alguém nos abordava e puxava assunto: ‘vocês não são daqui, né?’.  Ao saber-nos de São Paulo, contavam-nos suas idas e vindas ou as de familiares”, escrevem.

 

Branca: da Paraíba para o Capão Redondo

A exibição na Escola da Cidade, no entanto, é o resultado de uma pesquisa mais extensa, cujo início relaciona-se à vida da paraibana de São José da Lagoa Tapada (7.564 habitantes) Branca, que chegou a São Paulo a contragosto aos 15 anos e hoje mora no Capão Redondo, na zona sul, cercada de parentes. “Queríamos saber se Branca sonharia com o regresso; se conheceria ou saberia de gente que está regressando. ‘Gosta daqui? Sonha em voltar pra lá?’ No relato de Branca sobre sua vida, seus amigos e parentes, descobrimos exemplos das transformações que os números apontam”, escrevem as artistas.

Vencedoras do ProAC 15 – Concurso de Apoio a projetos de Artes Visuais no Estado de São Paulo 2014, Marina e Mirella saíram a campo, primeiramente visitando e registrando depoimentos de pessoas da região onde morava Branca e, depois, no Capão Redondo, em parceria com o programa Fábricas de Cultura, onde a família dela se estabeleceu. Em ambas as estadas, realizaram um trabalho de cunho cartográfico, com histórias, depoimentos, personagens, impressões, imagens de suas idas e vindas. Já a última etapa do projeto acontece desde outubro na Escola da Cidade, com a participação de alunos-estagiários da Instituição.

Mariana Vaz é artista-empreendedora com atuação em performance, intervenção urbana, vídeo e direção teatral. Mirella Marino, artista visual. Paulistas paulistanas, nascidas no final da década de 1970, residentes em São Paulo.

 

“Abrimos nossos ouvidos aos sujeitos e às suas narrativas sobre idas e voltas deles, de parentes, de amigos…. Percursos ao longo dos quais se perguntam sobre si mesmos – ora questionam sua identidade, ora procuram construir uma nova identidade na alteridade”, declaram.

 

Serviço:

Exposição: Vou Voltar

  • Período: 04 a 29 de novembro de 2015
  • Local: Escola da Cidade
  • Visitação: Abertura no dia 03 de novembro, às 18h
    Visitação de 04 a 29 de novembro
    Segunda a sexta, das 10h às 20h
    Sábados e Domingos das 10h às 18h

Entrada gratuita e livre

 

vouvoltar_final